Casas do Césio 137: O Legado da Maior Tragédia Radioativa do Brasil
Em setembro de 1987, as casas do césio 137 em Goiânia viveram um pesadelo que poucos brasileiros conseguem esquecer. Dois catadores de lixo entraram em uma clínica abandonada, desmontaram uma máquina de radioterapia e, sem querer, espalharam 19 gramas de cloreto de césio-137 pela região central da cidade. Por isso, esse acidente, considerado o pior desastre nuclear das Américas e o maior fora de usinas nucleares, deixou marcas profundas no solo, na saúde das vítimas e na memória coletiva.
Contudo, pouca gente conhece os detalhes sobre os locais onde o material radioativo passou, onde as vítimas moravam e o que restou desses espaços. Por isso, neste artigo, vamos explorar as chamadas casas do césio 137, explicar como a contaminação aconteceu e mostrar o que restou desses endereços quase 40 anos depois.
O que foram as Casas do Césio 137?

Quando falamos em casas do césio 137, estamos nos referindo às residências, ao ferro-velho e aos imóveis que receberam a cápsula radioativa ou partes dela. Esses locais serviram como vetores de disseminação da radiação, pois familiares, vizinhos e curiosos manipulavam o pó brilhante sem saber do perigo. Portanto, entender a geografia do desastre nos ajuda a compreender a dimensão humana e ambiental da tragédia.
A princípio, o acidente começou no antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), uma clínica abandonada no Setor Oeste. Hoje, esse local abriga o Centro de Convenções de Goiânia. No entanto, a contaminação efetivamente se espalhou a partir do ferro-velho de Devair Ferreira, no Setor Aeroporto. Desse ponto, a radiação migrou para várias casas do césio 137, incluindo a residência do próprio Devair, a casa de seu irmão Ivo Ferreira e a moradia de vizinhos como Sueli de Moraes.
Como a radiação entrou nas casas e na vida das pessoas
Primeiramente, Wagner Pereira e Roberto Alves retiraram a cápsula de chumbo da clínica e a venderam como sucata para Devair Ferreira. Dentro do pesado cilindro, eles encontraram um pó branco-azulado que brilhava no escuro. Sem saber dos riscos, Ferreira levou o cilindro para sua garagem. Depois, ele convidou amigos e parentes para ver a “pedra preciosa”. Usando uma chave de fenda, algumas pessoas extraíram fragmentos do tamanho de grãos de arroz. Em seguida, muitos esfregaram o pó radioativo na pele, como se fosse glitter de Carnaval.
Assim, a contaminação entrou nas casas do césio 137 de forma silenciosa e traiçoeira. Por exemplo, Leide das Neves Ferreira, filha de Ivo Ferreira, tocou no pó durante uma refeição e até engoliu um pouco do material. Infelizmente, ela se tornaria a primeira vítima fatal. Dessa maneira, o simples ato de compartilhar um objeto curioso entre familiares transformou lares comuns em zonas de perigo nuclear.
O brilho azul que enganou a todos
Muitas vítimas relataram que a cápsula emitia um brilho azul intenso durante a noite. Devair Ferreira achou aquele fenômeno bonito e acreditou que o pó poderia ter valor sobrenatural ou financeiro. Por consequência, ele distribuiu pedaços para parentes e vizinhos. Assim, o material radioativo chegou a dezenas de residências. Essas casas do césio 137 se tornaram, sem exagero, pequenos depósitos de lixo atômico.
A contaminação humana e os sintomas iniciais

riam os efeitos da radiação. Os primeiros sinais incluíam vômitos, diarreia, tontura e mãos inchadas. No entanto, os médicos confundiram esses sintomas com intoxicação alimentar ou alergias. Somente depois de duas semanas, a esposa de Devair, María Gabriela Ferreira, suspeitou que a cápsula brilhante poderia ser a causa de tantas doenças.
Ela pegou o cilindro, colocou em um saco plástico e o levou de ônibus para um posto de saúde. Ninguém sabia o que era aquilo. O físico Walter Mendes Ferreira, chamado para avaliar o objeto, percebeu a gravidade quando seu detector de radiação ficou saturado a 80 metros de distância. Imediatamente, ele evacuou o prédio e correu para o ferro-velho. Lá, a radiação já contaminava tudo ao redor.
As Casas do Césio 137 foram demolidas ou isoladas?
Após a confirmação do acidente, as autoridades brasileiras, com apoio da AIEA, iniciaram uma operação gigantesca de descontaminação. Cerca de 112 mil pessoas passaram por exames. Dessas, 249 apresentaram níveis significativos de radiação no corpo. Centenas de pessoas com contaminação leve precisaram ficar em abrigos especiais. Enquanto isso, as casas do césio 137 tiveram destinos diferentes.
Demolição e remoção do solo
O ferro-velho de Devair Ferreira foi totalmente demolido. Dezenas de residências também foram derrubadas. Os trabalhadores removeram o solo contaminado, arrancaram árvores, recolheram animais mortos e destruíram móveis, eletrodomésticos, roupas e até carros. Tudo isso se transformou em resíduo nuclear. No total, o desastre produziu cerca de 6 mil toneladas de lixo radioativo. Esse material segue enterrado em um depósito especial em Abadia de Goiás, a 20 km de Goiânia.
O que restou das casas?
Hoje, os terrenos onde ficavam as principais casas do césio 137 foram urbanizados ou transformados. Alguns viraram ruas, outros estacionamentos ou áreas verdes. No entanto, a memória ainda assombra o local. Placas informativas e relatos de moradores antigos preservam a lembrança do desastre. Apesar disso, muitos dos novos residentes desconhecem o que aconteceu ali.
O pânico e o isolamento das vítimas
Além da contaminação física, as vítimas do césio-137 sofreram com o preconceito e o medo generalizado. Quando Leide das Neves Ferreira morreu, populares atiraram pedras e tijolos no cemitério para impedir o enterro. Eles acreditavam que o corpo contaminaria o solo. Da mesma forma, sobreviventes como Sueli de Moraes ficaram isolados por meses em abrigos. Ela precisava tomar banho com vinagre e sabão de coco a cada meia hora, trocar de roupa constantemente e não podia receber visitas.
Portanto, as casas do césio 137 não foram apenas pontos geográficos. Elas representam o drama de famílias inteiras que perderam seus lares, seus pertences e, em muitos casos, sua dignidade. O governo passou a pagar pensões vitalícias para cerca de 250 vítimas diretas. Posteriormente, outras 2 mil pessoas, incluindo bombeiros e policiais, também receberam indenizações.
O depósito nuclear em Abadia de Goiás

Todo o material retirado das casas do césio 137 e das áreas contaminadas segue armazenado na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em Abadia de Goiás. O local recebeu camadas de concreto, brita e solo. Hoje, técnicos monitoram constantemente os níveis de radiação. Segundo pesquisadores, os resíduos só deixarão de oferecer risco após cerca de 200 anos. Isso significa que ainda faltam mais de 160 anos para que a área possa ser considerada totalmente segura.
Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara) presta atendimento médico e psicológico às vítimas diretas e indiretas do acidente. Muitas delas ainda sofrem com sequelas físicas e emocionais.
Comparação com outros acidentes nucleares
Embora o acidente de Goiânia seja classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES), ele não teve a magnitude de Chernobyl (nível 7). Contudo, sua importância histórica vem do fato de ter ocorrido fora de uma usina nuclear, em plena área urbana, expondo milhares de pessoas à radiação sem qualquer preparo. Por isso, as casas do césio 137 se tornaram símbolo da vulnerabilidade humana diante da tecnologia mal gerenciada.
Diferentemente de Chernobyl, onde uma cidade inteira foi evacuada e permanece abandonada, Goiânia seguiu vivendo. As áreas contaminadas foram recuperadas em sua maioria. No entanto, os resíduos continuam enterrados nas proximidades, um lembrete silencioso do perigo.
O que podemos aprender com as Casas do Césio 137?

Em primeiro lugar, o acidente mostrou a importância de descartar corretamente equipamentos médicos radioativos. A clínica abandonada que continha a unidade de radioterapia deveria ter sido desativada com segurança. Em segundo lugar, a falta de informação imediata agravou o desastre. Se os médicos e a população soubessem reconhecer os sintomas da radiação, muitas vidas poderiam ter sido salvas.
Além disso, a tragédia evidenciou a necessidade de planos de emergência para acidentes radioativos. Hoje, o Brasil possui protocolos mais rígidos, mas especialistas alertam que ainda há muito a fazer. As casas do césio 137 servem como um memorial vivo: elas nos ensinam que o descuido com o lixo atômico pode transformar qualquer bairro em uma zona de desastre.
A série “Emergência Radioativa” e a volta do interesse pelo caso
Em março de 2025, a Netflix estreou a série “Emergência Radioativa”, que recontou a história do acidente para uma nova geração. Com isso, muitas pessoas redescobriram o caso e passaram a visitar os locais históricos. Influenciadores como Isa Bosco percorreram as antigas casas do césio 137 e mostraram nas redes sociais como esses espaços estão atualmente. O Centro de Convenções de Goiânia, o Estádio Olímpico (hoje Centro de Excelência do Esporte) e o Hospital Geral de Goiânia receberam placas e exposições sobre o acidente.
Portanto, a memória do césio-137 permanece viva. As **casas do césio 137** não são mais pontos de contaminação, mas sim lugares de aprendizado. Elas nos lembram que a radiação não tem cheiro, cor ou sabor. Ela chega silenciosamente, brilha no escuro e mata sem pedir licença.
O futuro das áreas contaminadas

Com o passar dos anos, a radiação nos locais das antigas **casas do césio 137** caiu a níveis seguros para a ocupação humana. No entanto, o depósito de Abadia de Goiás continuará sendo monitorado por décadas. Os técnicos garantem que não há risco de vazamento, mas a população da região ainda olha com desconfiança para aquele pedaço de terra.
Enquanto isso, sobreviventes como Sueli de Moraes, hoje presidente da associação das vítimas, lutam para manter viva a memória do acidente. Ela participa de palestras em escolas, universidades e eventos de segurança radiológica. Seu objetivo é claro: evitar que outra tragédia como essa aconteça novamente.
Conclusão
As casas do césio 137 representam muito mais do que endereços contaminados. Elas simbolizam o descaso com o lixo hospitalar, a falta de preparo das autoridades, a vulnerabilidade dos mais pobres (os catadores de lixo) e a força da desinformação. Ao mesmo tempo, esses locais mostram a resiliência das vítimas, a coragem de profissionais como o físico Walter Mendes Ferreira e a importância da memória histórica.
Quase 40 anos depois, Goiânia superou o desastre, mas não o esqueceu. As casas do césio 137 deram lugar a novos prédios, ruas e praças. Porém, quem conhece a história sabe que, em cada canto daquela região, ainda ecoa o brilho azul que quase destruiu uma cidade. Portanto, ao caminhar pelo Setor Aeroporto ou pelo Centro de Convenções, lembre-se: a radiação pode sumir, mas a lição deve permanecer.
Se você quer saber mais sobre segurança radiológica, sobre os direitos das vítimas ou sobre como evitar novos acidentes, procure o Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara) ou a Comissão Nacional de Energia Nuclear. Informação salva vidas. E a história das casas do césio 137 prova isso, infelizmente, da maneira mais trágica possível.



