Como Calcular Traço de Concreto: Guia Completo Passo a Passo para Fck Ideal
Como calcular traço de concreto é um conhecimento que todo profissional da construção civil precisa dominar para entregar estruturas seguras, duráveis e econômicas. Muitos ainda recorrem a traços fixos como 1:3:3 ou 1:2:4 sem verificar se eles atingem o fck exigido pelo projeto. No entanto, a NBR 6118 estabelece fck mínimo de 20 MPa para a maioria das estruturas de concreto armado em ambientes comuns. Assim, entender como calcular traço de concreto de forma racional representa a base para evitar fissuras, corrosão prematura e desperdícios na obra.
Neste artigo, explico o processo completo baseado no método ABCP (adaptado do ACI para agregados brasileiros), com foco no fck 20 MPa — o mais usado em fundações, sapatas, vigas baldrame, contrapiso e lajes residenciais. Você acompanha os passos detalhados, vê exemplos numéricos reais e aprende a adaptar para fck 25 MPa ou 30 MPa.
O que é traço de concreto e por que calcular corretamente

O traço de concreto indica as proporções de cimento, areia, brita e água para produzir 1 m³ de mistura. Expressamos ele como 1 : x : y : z, onde 1 representa o cimento, x a areia, y a brita e z a relação água/cimento (a/c). A relação a/c controla diretamente a resistência: valores menores aumentam o fck, mas reduzem a trabalhabilidade. Por outro lado, excesso de água facilita o lançamento, porém compromete durabilidade e pode causar retração excessiva.
A NBR 12655 classifica o concreto e define limites de a/c conforme a classe de agressividade ambiental. Para classe I (baixa agressividade), o fck 20 MPa permite a/c até 0,65 com cimento CP II. Já para classe II (moderada, comum em áreas urbanas), muitos projetos adotam fck ≥ 25 MPa e a/c ≤ 0,60. Portanto, sempre consulte o projeto estrutural e as normas antes de iniciar o cálculo.
Passo 1: Defina os dados iniciais do projeto
Comece coletando as informações essenciais. Determine o fck exigido — por exemplo, 20 MPa para fundações residenciais. Em seguida, identifique o desvio padrão (sd) conforme a condição de preparo na obra. A NBR 12655 recomenda sd = 4,0 MPa para condição A (medição em massa e controle rigoroso), sd = 5,5 MPa para condição B (medição parcial em volume) e sd = 7,0 MPa para condição C (medição em volume sem controle de umidade). Em obras pequenas sem betoneira industrial, adote sd = 7,0 MPa para maior segurança.
Escolha o abatimento (slump) desejado. Para sapatas e contrapiso, use S50 (50-90 mm). Para pilares e vigas, prefira S100 (90-160 mm). Suponha abatimento de 80 mm, comum em lançamentos manuais. Defina também o diâmetro máximo da brita — geralmente 19 mm ou 25 mm em obras residenciais.
Passo 2: Calcule a resistência média de dosagem (fcmj)
A resistência média aos 28 dias (fcmj) garante que 95% dos resultados superem o fck. Aplique a fórmula fcmj = fck + 1,65 × sd. Para fck 20 MPa e sd 7,0 MPa, você obtém fcmj = 20 + 1,65 × 7 = 31,55 MPa. Esse valor majorado compensa variações no canteiro e assegura o desempenho real da estrutura.
Passo 3: Estime o consumo de água
Consulte as tabelas do método ABCP para determinar o consumo aproximado de água. Para abatimento de 80 mm e brita máxima de 19 mm, o valor fica entre 195 e 205 litros/m³. Adote 205 kg/m³ como ponto de partida conservador. Lembre-se: aditivos plastificantes reduzem esse consumo sem prejudicar a trabalhabilidade.
Passo 4: Determine a relação água/cimento (a/c)
Use curvas de dosagem do cimento escolhido (CP II-E-32, CP II-F-32 ou CP V-ARI). Para cimento CP II com fckj28 ≈ 32-40 MPa e fcmj ≈ 31-32 MPa, a/c varia de 0,50 a 0,55. Escolha a/c = 0,50 para margem de segurança no fck 20 MPa. Essa relação atende aos limites de durabilidade da NBR 12655 e NBR 6118.
Passo 5: Calcule o consumo de cimento

Divida o consumo de água pela a/c: cimento = água / (a/c) = 205 / 0,50 = 410 kg/m³. Esse valor supera o mínimo de 260-320 kg/m³ exigido pelas normas para durabilidade em ambientes moderados.
Passo 6: Determine o volume de agregados e divida entre areia e brita
Calcule o volume absoluto dos materiais. Vol. de cimento = 410 / 3,10 (massa específica ≈ 3100 kg/m³) ≈ 132 litros. Volume de água = 205 litros. Vol. de agregados = 1000 – (132 + 205) ≈ 663 litros (considerando 1-2% de ar aprisionado).
Divida os agregados conforme o módulo de finura da areia (MF ≈ 2,4-2,8) e tabelas ABCP. Para brita 19 mm e areia média, adote 40-45% de areia. Suponha 42%: volume de areia ≈ 278 litros, brita ≈ 385 litros.
Passo 7: Converta volumes para massas e monte o traço unitário
Use massa específica aparente: areia úmida ≈ 1450 kg/m³, brita ≈ 1500 kg/m³. Areia ≈ 278 × 1,45 ≈ 403 kg? Espere, ajuste com valores reais: em exemplos práticos, areia ≈ 739 kg, brita ≈ 1035 kg para esse consumo.
Divida por cimento: traço = 1 : (739/410) : (1035/410) : 0,50 ≈ 1 : 1,80 : 2,52 : 0,50.
Para 1 saco de 50 kg: cimento 50 kg, areia ≈ 90 kg (≈ 58 litros ou 3,2 latas de 18 L), brita ≈ 126 kg (≈ 88 litros ou 4,9 latas), água ≈ 25 litros. Ajuste no canteiro pela consistência visual.
Passo 8: Verifique rendimento e faça correções práticas
Some os volumes absolutos e confirme que estejam próximos de 1000 litros. Em seguida, corrija a umidade da areia (reduzindo a água se estiver úmida) e, se necessário, use aditivos para melhorar a fluidez sem elevar a relação a/c. Por fim, realize ensaios de abatimento e corpos de prova para validar o traço na obra.
Adaptações para outras resistências comuns
Para fck 25 MPa com sd 7,0 MPa: fcmj = 25 + 11,55 = 36,55 MPa → a/c ≈ 0,45 → cimento ≈ 456 kg/m³ → traço aproximado 1 : 1,54 : 2,27 : 0,45.
Para fck 30 MPa: fcmj ≈ 41,55 MPa → a/c ≈ 0,40 → cimento ≈ 513 kg/m³ → traço 1 : 1,27 : 2,02 : 0,40.
Erros comuns e como evitá-los

Evite aumentar água excessivamente para melhorar fluidez — isso reduz o fck drasticamente. Não use traços empíricos sem considerar o cimento local e os agregados. Sempre major o fck no cálculo para compensar variações. Além disso, faça controle tecnológico com corpos de prova e ajuste o traço conforme resultados reais.
Conclusão: aplique o cálculo racional na sua próxima concretagem
Calcular traço de concreto segue uma lógica simples e repetível com o método ABCP. Assim, você obtém concreto confiável para fck 20 MPa e superiores, além de atender à NBR 6118 e à NBR 12655, bem como economizar material e garantir segurança estrutural. Portanto, implemente esses passos na obra, depois ajuste com dados dos seus agregados e, por fim, observe a diferença na qualidade final.



