Rochas ornamentais: extração, lavra e transformação da pedra em valor
A extração de rochas ornamentais vai muito além de “tirar pedra da pedreira”. Esse processo envolve várias etapas interligadas, como a pesquisa mineral, o licenciamento, a escolha do método de lavra e o beneficiamento do material. Além disso, inclui decisões técnicas que influenciam diretamente os custos, os impactos ambientais e a qualidade do produto final.
Por isso, quando alguém especifica granito, mármore ou quartzito em uma obra, é importante compreender que existe toda uma cadeia produtiva por trás de cada chapa. Dessa forma, cada detalhe técnico e operacional contribui para transformar a rocha bruta em um material de alto valor estético e econômico.
O que são rochas ornamentais e por que a extração importa

As rochas ornamentais são materiais pétreos amplamente utilizados em revestimentos, fachadas, pisos, bancadas, escadas, mobiliário, esculturas e elementos decorativos. Além disso, esses materiais combinam estética, durabilidade e resistência, características que garantem grande versatilidade de aplicação. Por essa razão, eles se tornaram extremamente valorizados na arquitetura e no design de interiores, acrescentando elegância e sofisticação aos espaços. Desse modo, o uso das rochas ornamentais representa a união entre beleza natural e desempenho técnico nas construções modernas.
- Entre os principais tipos, destacam-se granito, mármore, quartzito, arenito, esteatito (pedra-sabão), ardósia e calcário.
- A maior parte das rochas ornamentais tem origem magmática e metamórfica e ocorre em regiões de escudos cristalinos, que concentram grandes jazidas.
A extração correta dessas rochas evita desperdício de jazida, reduz impactos ambientais e aumenta a competitividade do setor, que ocupa posição de destaque no mercado mundial.
Etapas iniciais: pesquisa mineral e licenciamento
Antes de qualquer corte na rocha, a extração começa no papel e no campo. A primeira etapa envolve pesquisa mineral e avaliação da viabilidade econômica, técnica e ambiental da jazida.
- Inicialmente ocorre uma pesquisa informal da área com potencial para extração de rochas ornamentais.
- Em seguida, o empreendedor solicita à Agência Nacional de Mineração (ANM) o requerimento de pesquisa.
- Após a autorização, equipes realizam pesquisas técnicas detalhadas e produzem o Relatório Final de Pesquisa (RFP), que pode apontar viabilidade ou inviabilidade do projeto.
Quando o relatório confirma a viabilidade, a etapa seguinte consiste no licenciamento minerário junto à ANM e no licenciamento ambiental junto ao órgão competente da região. Além disso, essa fase é fundamental para garantir que a extração ocorra de forma responsável e dentro das normas legais.
Somente após a emissão das licenças, a lavra das rochas ornamentais pode efetivamente começar, assegurando conformidade técnica e ambiental em todo o processo. Assim, o cumprimento dessas etapas demonstra o compromisso do setor com a sustentabilidade e a regularidade das operações.
Métodos de extração de rochas ornamentais (lavra)

A escolha do método de lavra define o sucesso técnico e econômico da extração. Por isso, a análise geológica da pedreira se torna essencial antes de qualquer intervenção.
Estudos prévios da jazida
Antes de definir o tipo de lavra, a equipe técnica precisa estudar o local com cuidado. Esses estudos ajudam a:
- Localizar o corpo rochoso com potencial ornamental.
- Avaliar a qualidade estética (cor, textura, granulação) e as propriedades físicas e mecânicas da rocha.
- Planejar o melhor método de explotação para aumentar o aproveitamento e reduzir custos e impactos.
Um bom estudo evita o subaproveitamento da jazida e reduz o volume de estéril e rejeitos gerados.
Lavra a céu aberto
A lavra a céu aberto é o método mais comum na extração de rochas ornamentais. Nesse tipo de operação, os minérios ficam próximos à superfície e a pedreira funciona como grande cava ou bancada.
- As pedreiras podem ser do tipo cava, em encosta ou de nivelamento.
- Entre os métodos, destacam-se lavra em fossa, lavra em poço e lavra por bancadas altas ou baixas.
Esse modelo permite maior produtividade, mas exige planejamento rigoroso de cortes, acessos, drenagem e estabilidade de taludes para garantir segurança e eficiência.
Lavra subterrânea
Quando o corpo rochoso se encontra em maior profundidade, a alternativa passa a ser a lavra subterrânea. Nesse caso, túneis e galerias dão acesso aos blocos, que passam a ser explorados com apoio de sondagens e topografia.
- O impacto ambiental na superfície se torna menor, já que a intervenção visual e espacial se concentra no subsolo.
- Em contrapartida, os custos e a complexidade operacional aumentam, assim como as exigências de segurança.
Esse tipo de lavra costuma atender jazidas de alto valor ou contextos em que a preservação da paisagem se torna prioridade.
Lavra de matacão
A lavra de matacão aproveita blocos já destacados ou parcialmente separados do maciço rochoso. Matacões podem resultar de processos naturais de intemperismo ou de antigas intervenções na pedreira.
- Esse método exige equipamentos mais simples e menos investimento em infraestrutura de bancada.
- A execução tende a ser mais rápida, com menor volume de desmontes de grande porte.
Quando a jazida oferece muitos matacões de boa qualidade, o custo de extração por metro cúbico de rocha ornamental diminui.
Da pedreira à indústria: blocos, transporte e beneficiamento

Depois de definir o método de lavra e iniciar a extração, a rocha passa por uma série de etapas até se transformar em chapas e peças acabadas.
Produção e movimentação dos blocos
Em geral, os blocos de rochas ornamentais medem entre 6 e 12 m³ logo após o desmonte. Depois da extração, a equipe técnica avalia a possibilidade de recorte em blocos menores, com cerca de 3 m³, para facilitar o transporte e o beneficiamento.
- O transporte da pedreira até o pátio ocorre com máquinas de pequeno a médio porte ou caminhões fora de estrada.
- A rotina inclui tombamento, estocagem, carregamento, remoção de estéril e manejo de rejeitos.
Nessa etapa, o cuidado com o bloco evita fissuras, quebras e perdas de material, preservando o valor comercial do produto.
Beneficiamento primário: serragem e desdobramento
No beneficiamento primário, os blocos se transformam em chapas ou tiras com diferentes espessuras. Esse processo, conhecido como serrada, utiliza:
- Máquinas diamantadas.
- Teares multifios.
- Teares de lâmina.
O objetivo consiste em desdobrar o bloco de forma eficiente, mantendo a integridade estrutural e a qualidade estética das chapas.
Beneficiamento secundário e acabamento final
Em seguida, o material entra no beneficiamento secundário, momento em que a indústria melhora a estrutura e o visual das chapas.
- A rocha recebe tela e resina para reforço, selamento e correção de microdefeitos.
- Depois, passa pela etapa de polimento, que realça brilho, cor e desenho dos veios.
O terceiro passo envolve o corte final das chapas, gerando peças sob medida para diferentes aplicações:
- Bancadas, pisos, rodapés, pingadeiras, painéis, bordas de piscinas, escadas e outros elementos de acabamento.
Ao final, as peças são embaladas e seguem para as obras ou para exportação.
Tipos de rochas ornamentais e suas características

O mercado costuma separar rochas ornamentais em grandes grupos comerciais, ainda que a classificação geológica seja mais ampla.
- Mármores: rochas ricas em carbonato, de origem sedimentar ou metamórfica, usadas em bancadas, pisos e revestimentos internos.
- Granitos: rochas não calcárias, que incluem basalto, gabro, gnaisse, migmatito, granulito e alguns quartzitos.
- Outras pedras naturais: quartzito, calcário, gnaisse, ardósia, muitas vezes em placas rústicas e sem polimento.
A escolha do tipo de rocha depende da combinação entre beleza, resistência, custo e disponibilidade, além das tendências estéticas do mercado.
Estética, desempenho e valor comercial
Três dimensões definem a atratividade econômica das rochas ornamentais.
- Estética: cor, textura e granulação determinam a harmonização com o ambiente e a percepção de exclusividade.
- Propriedades técnicas: ensaios físicos, químicos e mecânicos verificam resistência, durabilidade e comportamento frente a agentes agressivos.
- Valor comercial: blocos comuns têm preço bem menor que quartzitos e granitos exóticos, muito disputados pela arquitetura de alto padrão.
A ABNT estabelece parâmetros mínimos para garantir segurança e desempenho em obra, o que valoriza materiais com bom histórico de uso e qualidade comprovada.
Rochas ornamentais no Brasil e no mundo
O Brasil ocupa posição de destaque na produção e exportação de rochas ornamentais. Regiões como Espírito Santo, Minas Gerais, Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte concentram pedreiras e indústrias de beneficiamento.
- As exportações seguem principalmente para Estados Unidos, China e Itália, por portos como Santos, Vitória, Rio de Janeiro, Sepetiba, Recife e Fortaleza.
- A produção global de rochas ornamentais cresceu muito nas últimas décadas, impulsionada pela demanda da construção civil e pela evolução dos equipamentos de corte e polimento.
Hoje, países como China, Índia, Turquia, Irã, Itália, Brasil e Espanha respondem por grande parte da oferta mundial.
Sustentabilidade, tecnologia e desafios da extração

A extração de rochas ornamentais carrega um potencial sustentável importante quando ocorre com planejamento. A possibilidade de aproveitar resíduos como agregados, melhorar o rendimento de blocos e investir em equipamentos mais precisos reduz desperdícios.
- Técnicas de corte com fio diamantado, perfuração precisa e uso limitado de explosivos permitem separar blocos grandes com menos dano à rocha.
- A destinação de sobras para brita e outros usos diminui o volume de rejeitos descartados.
Por outro lado, o setor enfrenta desafios como necessidade de investimento em tecnologia, qualificação de mão de obra e adequação às exigências ambientais cada vez mais rigorosas.
Conclusão: extração de rochas ornamentais como cadeia de valor
Quando alguém observa uma bancada de granito, um piso de mármore ou um painel de quartzito, dificilmente imagina toda a jornada daquela rocha. De fato, antes de chegar às obras e aos projetos de design, ela passa por um longo processo de transformação. Desde a pesquisa mineral inicial, passando pela lavra — seja a céu aberto ou subterrânea —, até o beneficiamento e o acabamento final, cada etapa exige técnica e planejamento.
Assim, a extração de rochas ornamentais se consolida como uma cadeia complexa e estratégica para a construção civil e o design de interiores.
Além disso, com planejamento cuidadoso, licenciamento responsável e investimento contínuo em tecnologia, o setor consegue ampliar sua eficiência produtiva. Dessa forma, a extração de rochas ornamentais une desempenho econômico, valorização estética e compromisso ambiental. Consequentemente, o Brasil fortalece seu papel como uma referência mundial nesse segmento, unindo tradição, qualidade e inovação.



